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de todos os lugares do mundo? Na Cultura tem!
O que leva uma
pessoa a deixar tudo de lado – trabalho, família, amigos, compromissos,
toda uma rotina – e rumar para uma peregrinação de mais
de 800 km a pé, caminhando quase sempre sozinho, de mochila às
costas, dormindo em albergues, igrejas e até mesmo numa barraca no
meio do mato, enfrentando grandes variações de temperatura,
terrenos acidentados, comendo de improviso e vivendo essencialmente daquilo
que pode carregar ? Que fascínio exerce essa rota medieval, já
percorrida por milhares e milhares de pessoas nos últimos 1200 anos
? Desde gente simples, às vezes na companhia da família inteira,
até nobres, príncipes, reis e rainhas, gente famosa, aventureiros,
curiosos, todos movidos por grande fé e determinação.
Passados meus 43 anos, todos eles vividos em grandes cidades, depois de ter
aberto mão de um cargo bem remunerado, embora sem qualquer perspectiva
de realização, e um casamento desfeito já há tempos,
resolvi fazer uma pausa na vida.
DESARRUMANDO
AS MALAS
Santiago de Compostela
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o cursor sobre as imagens para ler as legendas.
Texto
e fotos: Fábio S. M. Carvalho
Decidi
partir ao encontro de mim mesmo e me tornei um peregrino do Caminho de Santiago
de Compostela. Foi, sem dúvida, a mais fantástica experiência de minha vida.
Um
pouco da história do Caminho
Santiago foi um dos apóstolos de Jesus. Após a morte do Messias,
pregou seus ensinamentos na Espanha, sendo considerado o primeiro evangelizador
daquele país. De volta a Jerusalém, acusado de idolatria pelos
judeus, foi morto e decapitado no ano 44 da era cristã. Seus restos
foram levados para a Espanha e ficaram esquecidos por muito tempo.
Segundo a tradição, no século IX, sua tumba foi encontrada depois que um feixe
de estrelas caiu na região onde se encontrava a sua cripta. O fato chamou
a atenção de um monge, que logo comunicou o fato ao rei Afonso II. Ele, juntamente
com o papa, divulgaram a notícia e determinaram a construção da primeira igreja
no local, que passou a ser chamado Campus Stellae (Campo de Estrelas), hoje
Compostela, e a edificação depois foi substituída por uma majestosa Catedral.
Milagres de todos os tipos foram atribuídos ao santo, e por volta do ano 820
da era cristã, teve início a tradição da peregrinação pela rota de Santiago,
atraindo inicialmente gente de toda a Europa e, atualmente, de todas as partes
do mundo.

A
viagem até o início do Caminho
Tomada
a decisão de partir, procurei a Associação dos Amigos do Caminho de Santiago,
em São Paulo, onde voluntários e ex-peregrinos dão todas as dicas e informações
necessárias e onde também é fornecida a Credencial de Peregrino. Este documento
é usado para os registros, feitos com carimbos estilizados, das passagens
pelos diversos pontos do Caminho (albergues, hotéis, igrejas, etc) e depois
serve de comprovação para a emissão da Compostelana, diploma de conclusão
da peregrinação, emitida na chegada em Santiago de Compostela.
Embarquei no Aeroporto de Cumbica numa noite de domingo. Ali iniciava o Meu
Caminho de Santiago. Desembarquei em Madri e na manhã seguinte tomei
um trem para Pamplona (4 horas de viagem) e dali um táxi até
Saint Jean Pied de Port, descendo os Pirineus e entrando na França,
onde efetivamente começaria o famoso Caminho Francês.

Enfim,
o Caminho
Saindo de Saint Jean, subi os Pirineus por sinuosas trilhas asfaltadas e caminhos
de terra até Roncesvalles, cerca de 27 km de caminhada e 800 m de altitude.
Esse primeiro dia eu considerei o mais difícil de todos. A adaptação ao equipamento,
mochilas, botas, etc, o clima frio e nebuloso, a enorme subida, a tensão de
procurar as famosas setas amarelas que indicam o Caminho, tudo foi recompensado
quando cheguei em Roncesvalles, local onde a maioria dos peregrinos inicia
sua jornada, até para fugir da fatídica subida, e onde se encontra um antigo
convento e um albergue feito de pedra, enorme e muito bonito, com capacidade
para mais de 300 peregrinos. A missa rezada no final da tarde em homenagem
aos viajantes, com uma benção especial a todos e os votos de sucesso dados
pelo padre local é uma das lembranças mais emocionantes que trago do Caminho.
Sobre as primeiras dores no corpo, diziam os mais experientes: “depois de
uma semana a gente se acostuma” _eu queria ver ...



Há
muita água pelo caminho, em riachos e nascentes. Tomamos bastante vinho e
saboreamos os chamados “menus dos peregrinos” servidos nos bares e restaurantes.
Sempre que possível, carregamos umas frutas e outras guloseimas para enganar
a fome. Encontrei pessoas de todas as partes do mundo. Espanhóis, franceses,
holandeses, americanos, italianos, canadenses, uma grega, uma neozelandesa,
um garoto japonês que não desgrudava de seu radinho de pilha, todos integrados.
Os moradores dos vilarejos, os voluntários que cuidam dos albergues, os donos
dos bares e restaurantes, todos são extremamente amigos e simpáticos e ajudam
a compor um magnífico cenário constituído por bosques, florestas, estradas,
vilarejos, fazendas, trechos com lama, antigas calçadas medievais, além de
pontes, igrejas, castelos e monumentos com séculos de idade.
Embora
tudo cause admiração, a despeito do desgaste físico,
depois de cada empreitada, quando chegamos aos albergues, ainda temos que
lavar as roupas, escrever os diários e comprar comida para a caminhada
do dia seguinte, pois saímos sempre muito cedo, antes das “Tiendas”
abrirem. O movimento começa por volta das 5:30 e às 7:30, e
neste horário a maioria dos peregrinos já saiu dos albergues
para tomar café e seguir viagem.
Passados
11 dias de caminhada, de Logroño parti em direção a Burgos.
O corpo já estava mais acostumado e as bolhas nos pés ainda
não tinham aparecido. Decidi então comprar uma pequena barraca,
para poder dormir no mato, olhar melhor as estrelas, testar minha intuição,
dar mais serviço ao meu anjo da guarda e fugir dos albergues. As poucas
noites que dormi na barraca foram das mais especiais, apesar do frio e da
falta de conforto.
Partindo
de Burgos a caminho de Fromista, fica Castrojeriz, uma cidadezinha simpática
onde há um restaurante/bar/hospedaria cheia de bandeiras, pôsteres,
fotos e outras lembranças do Brasil. Os donos são apaixonados
pelo nosso país, recebem os brasileiros com o maior carinho, tocam nossas
músicas o tempo todo e tudo mais ... um verdadeiro “Oásis
brasileiro” no meio do Caminho de Santiago. É inacreditável
!!!

Saí
de Castrojeriz no final da tarde e subi até as famosas “mesetas”,
que são planaltos com longos trechos de retas, sem muita vegetação
e onde o calor nesta época é muito forte. Já no final
do dia, encontrei um vilarejo muito pequeno chamado Puente Fitero, onde fica
a Ermita de San Nicolas, uma maravilhosa construção em pedra
do século XII. De um lado estava o altar, do outro, apenas 8 camas
para peregrinos e, no centro, uma mesa grande arrumada e decorada para jantar
de umas 10 pessoas, com candeeiros espalhados, já que o local não
tinha luz elétrica. Ao lado da mesa, um padre italiano (são
dois padres italianos que cuidam do local) preparava o jantar numa pequena
cozinha improvisada. Quando lhe perguntei se havia ainda lugar disponível,
ele me respondeu prontamente: “Meu filho, temos ainda dois lugares à
mesa e duas camas a ocupar. Tome seu banho e prepare-se para uma macarronada
especial”. Foi uma noite absolutamente mágica !!!!



Depois
de Fromista, segui para Leon, já na segunda metade do Caminho a Santiago,
sem dúvida a cidade mais bonita do percurso, com uma exuberante Catedral,
iluminada por vitrais indescritíveis. Ali, conforme havia planejado,
hospedei-me no Parador de San Marcos, um hotel 5 estrelas instalado em um
edifício maravilhoso do século XVI.
O ritmo a partir dali teria que ser mais forte. Deixei para trás o
planalto central do norte da Espanha, com retas intermináveis em pisos
de cascalho, sem muitas árvores e sombras, às vezes percorrendo
até 17 km sem qualquer vilarejo, e voltei a vislumbrar matas, algumas
florestas, subidas e descidas, possibilidade de chuva e barro. Somado a isso,
a partir dali, haveria um maior acúmulo de peregrinos (muita gente
inicia a caminhada em Leon e até 100 km antes de Santiago, distância
mínima exigida para se conseguir a Compostelana, o certificado da caminhada),
albergues mais cheios, distâncias um pouco maiores, etc.



O
Caminho de Santiago é, em muitos trechos, margeado por flores; a natureza
por lá é exuberante, as paisagens indescritíveis e os monumentos
históricos são um testemunho da fé de muitas gerações
através dos séculos.
Depois
de alguns dias de caminhada pela Província de León, encarei
a temível, úmida e sinuosa subida em direção a
O Cebreiro, na chamada “La Gran Ascension”, atingindo 1300m acima
do nível do mar. Fiz essa subida num final de tarde, absolutamente
sozinho, chegando ao destino bastante cansado, mas ainda disposto a assistir
à missa dos peregrinos e rever o pessoal que não encontrava
havia dias.
No
dia seguinte, caminhei cerca de 39 km até Sarria e de lá saí
em direção a Melide, onde vale a pena experimentar o famoso
prato local – Pulpo – um tipo de lula servida no azeite. Já
na Província de Coruña, passamos por Pedrouzo, onde dormi minha
última noite na barraca na véspera da triunfal e emocionante
chegada a Santiago de Compostela. Mal consegui dormir; permaneci olhando as
estrelas e rezando, mais uma vez agradecendo a maravilhosa experiência
pela qual eu estava passando. Antes de amanhecer, eu estava na estrada. Por
volta das 6:30 da tarde, finalmente subi as escadarias da Catedral de Santiago
de Compostela, finalizando a minha peregrinação. Foram 30 dias,
cerca de 800 km, mais de um milhão de passos, dezenas de vilarejos,
cidades, monumentos, igrejas, trilhas, caminhos pavimentados, pequenas estradas,
picadas, campos, plantações, pastos, subidas, descidas, retas,
curvas, muitos amigos novos, incontáveis dores por todo o corpo e muita,
muita história para contar.


Quando
entrei na Catedral de Santiago, procurei repassar toda a minha vida. Prometi
a Deus, a Santiago e a mim mesmo, que ali se iniciava uma nova etapa de minha
existência, na procura da felicidade e no trabalho por um mundo melhor.
Na verdade, ali terminava o meu Caminho de Santiago e recomeçava o
meu caminho da vida ...
Outras
imagens do caminho
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