Conheça também a Arte Inca, por Danielle Giannini

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TAILÂNDIA - SAWATDEE, por Ricardo Giannini
NOVA ZELÂNDIA -LIVROS, APOSTILAS E ADRENALINA, por Bruno Visconti
UM PEDAÇO DA ÍNDIA, por Helena Campiglia


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O que leva uma pessoa a deixar tudo de lado – trabalho, família, amigos, compromissos, toda uma rotina – e rumar para uma peregrinação de mais de 800 km a pé, caminhando quase sempre sozinho, de mochila às costas, dormindo em albergues, igrejas e até mesmo numa barraca no meio do mato, enfrentando grandes variações de temperatura, terrenos acidentados, comendo de improviso e vivendo essencialmente daquilo que pode carregar ? Que fascínio exerce essa rota medieval, já percorrida por milhares e milhares de pessoas nos últimos 1200 anos ? Desde gente simples, às vezes na companhia da família inteira, até nobres, príncipes, reis e rainhas, gente famosa, aventureiros, curiosos, todos movidos por grande fé e determinação. Passados meus 43 anos, todos eles vividos em grandes cidades, depois de ter aberto mão de um cargo bem remunerado, embora sem qualquer perspectiva de realização, e um casamento desfeito já há tempos, resolvi fazer uma pausa na vida.
DESARRUMANDO AS MALAS      Santiago de Compostela
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Texto e fotos: Fábio S. M. Carvalho
Paisagem
Em alguns momentos é possível encontrar muitos peregrinos pelo Caminho.
Árvores milenares
Decidi partir ao encontro de mim mesmo e me tornei um peregrino do Caminho de Santiago de Compostela. Foi, sem dúvida, a mais fantástica experiência de minha vida.
Um pouco da história do Caminho

Santiago foi um dos apóstolos de Jesus. Após a morte do Messias, pregou seus ensinamentos na Espanha, sendo considerado o primeiro evangelizador daquele país. De volta a Jerusalém, acusado de idolatria pelos judeus, foi morto e decapitado no ano 44 da era cristã. Seus restos foram levados para a Espanha e ficaram esquecidos por muito tempo.
Segundo a tradição, no século IX, sua tumba foi encontrada depois que um feixe de estrelas caiu na região onde se encontrava a sua cripta. O fato chamou a atenção de um monge, que logo comunicou o fato ao rei Afonso II. Ele, juntamente com o papa, divulgaram a notícia e determinaram a construção da primeira igreja no local, que passou a ser chamado Campus Stellae (Campo de Estrelas), hoje Compostela, e a edificação depois foi substituída por uma majestosa Catedral.
Milagres de todos os tipos foram atribuídos ao santo, e por volta do ano 820 da era cristã, teve início a tradição da peregrinação pela rota de Santiago, atraindo inicialmente gente de toda a Europa e, atualmente, de todas as partes do mundo.
Catedral de Santiago de Compostela
A viagem até o início do Caminho

Tomada a decisão de partir, procurei a Associação dos Amigos do Caminho de Santiago, em São Paulo, onde voluntários e ex-peregrinos dão todas as dicas e informações necessárias e onde também é fornecida a Credencial de Peregrino. Este documento é usado para os registros, feitos com carimbos estilizados, das passagens pelos diversos pontos do Caminho (albergues, hotéis, igrejas, etc) e depois serve de comprovação para a emissão da Compostelana, diploma de conclusão da peregrinação, emitida na chegada em Santiago de Compostela.
Embarquei no Aeroporto de Cumbica numa noite de domingo. Ali iniciava o Meu Caminho de Santiago. Desembarquei em Madri e na manhã seguinte tomei um trem para Pamplona (4 horas de viagem) e dali um táxi até Saint Jean Pied de Port, descendo os Pirineus e entrando na França, onde efetivamente começaria o famoso Caminho Francês.

Puente La Reina
Enfim, o Caminho

Saindo de Saint Jean, subi os Pirineus por sinuosas trilhas asfaltadas e caminhos de terra até Roncesvalles, cerca de 27 km de caminhada e 800 m de altitude. Esse primeiro dia eu considerei o mais difícil de todos. A adaptação ao equipamento, mochilas, botas, etc, o clima frio e nebuloso, a enorme subida, a tensão de procurar as famosas setas amarelas que indicam o Caminho, tudo foi recompensado quando cheguei em Roncesvalles, local onde a maioria dos peregrinos inicia sua jornada, até para fugir da fatídica subida, e onde se encontra um antigo convento e um albergue feito de pedra, enorme e muito bonito, com capacidade para mais de 300 peregrinos. A missa rezada no final da tarde em homenagem aos viajantes, com uma benção especial a todos e os votos de sucesso dados pelo padre local é uma das lembranças mais emocionantes que trago do Caminho. Sobre as primeiras dores no corpo, diziam os mais experientes: “depois de uma semana a gente se acostuma” _eu queria ver ...
Fábio Carvalho posa para foto  no Km 81
Paisagens
Muita união entre os peregrinos
Há muita água pelo caminho, em riachos e nascentes. Tomamos bastante vinho e saboreamos os chamados “menus dos peregrinos” servidos nos bares e restaurantes. Sempre que possível, carregamos umas frutas e outras guloseimas para enganar a fome. Encontrei pessoas de todas as partes do mundo. Espanhóis, franceses, holandeses, americanos, italianos, canadenses, uma grega, uma neozelandesa, um garoto japonês que não desgrudava de seu radinho de pilha, todos integrados. Os moradores dos vilarejos, os voluntários que cuidam dos albergues, os donos dos bares e restaurantes, todos são extremamente amigos e simpáticos e ajudam a compor um magnífico cenário constituído por bosques, florestas, estradas, vilarejos, fazendas, trechos com lama, antigas calçadas medievais, além de pontes, igrejas, castelos e monumentos com séculos de idade.
Embora tudo cause admiração, a despeito do desgaste físico, depois de cada empreitada, quando chegamos aos albergues, ainda temos que lavar as roupas, escrever os diários e comprar comida para a caminhada do dia seguinte, pois saímos sempre muito cedo, antes das “Tiendas” abrirem. O movimento começa por volta das 5:30 e às 7:30, e neste horário a maioria dos peregrinos já saiu dos albergues para tomar café e seguir viagem.
Centro de Burgos
Os peregrinos são bem recebidos por onde passam
Fábio com Santiago
Passados 11 dias de caminhada, de Logroño parti em direção a Burgos. O corpo já estava mais acostumado e as bolhas nos pés ainda não tinham aparecido. Decidi então comprar uma pequena barraca, para poder dormir no mato, olhar melhor as estrelas, testar minha intuição, dar mais serviço ao meu anjo da guarda e fugir dos albergues. As poucas noites que dormi na barraca foram das mais especiais, apesar do frio e da falta de conforto.
Partindo de Burgos a caminho de Fromista, fica Castrojeriz, uma cidadezinha simpática onde há um restaurante/bar/hospedaria cheia de bandeiras, pôsteres, fotos e outras lembranças do Brasil. Os donos são apaixonados pelo nosso país, recebem os brasileiros com o maior carinho, tocam nossas músicas o tempo todo e tudo mais ... um verdadeiro “Oásis brasileiro” no meio do Caminho de Santiago. É inacreditável !!!
Algumas noites de Fabio foram nesta pequena barraca
Saí de Castrojeriz no final da tarde e subi até as famosas “mesetas”, que são planaltos com longos trechos de retas, sem muita vegetação e onde o calor nesta época é muito forte. Já no final do dia, encontrei um vilarejo muito pequeno chamado Puente Fitero, onde fica a Ermita de San Nicolas, uma maravilhosa construção em pedra do século XII. De um lado estava o altar, do outro, apenas 8 camas para peregrinos e, no centro, uma mesa grande arrumada e decorada para jantar de umas 10 pessoas, com candeeiros espalhados, já que o local não tinha luz elétrica. Ao lado da mesa, um padre italiano (são dois padres italianos que cuidam do local) preparava o jantar numa pequena cozinha improvisada. Quando lhe perguntei se havia ainda lugar disponível, ele me respondeu prontamente: “Meu filho, temos ainda dois lugares à mesa e duas camas a ocupar. Tome seu banho e prepare-se para uma macarronada especial”. Foi uma noite absolutamente mágica !!!!
As longas retas do Caminho
Pedras empilhadas
Ermita de St. Nicolas
Depois de Fromista, segui para Leon, já na segunda metade do Caminho a Santiago, sem dúvida a cidade mais bonita do percurso, com uma exuberante Catedral, iluminada por vitrais indescritíveis. Ali, conforme havia planejado, hospedei-me no Parador de San Marcos, um hotel 5 estrelas instalado em um edifício maravilhoso do século XVI.
O ritmo a partir dali teria que ser mais forte. Deixei para trás o planalto central do norte da Espanha, com retas intermináveis em pisos de cascalho, sem muitas árvores e sombras, às vezes percorrendo até 17 km sem qualquer vilarejo, e voltei a vislumbrar matas, algumas florestas, subidas e descidas, possibilidade de chuva e barro. Somado a isso, a partir dali, haveria um maior acúmulo de peregrinos (muita gente inicia a caminhada em Leon e até 100 km antes de Santiago, distância mínima exigida para se conseguir a Compostelana, o certificado da caminhada), albergues mais cheios, distâncias um pouco maiores, etc.
Parador de Leon
Floresta Negra e a inseparável mochila
Muitas paisagens pelo caminho
O Caminho de Santiago é, em muitos trechos, margeado por flores; a natureza por lá é exuberante, as paisagens indescritíveis e os monumentos históricos são um testemunho da fé de muitas gerações através dos séculos.
Flores pelo Caminho
Depois de alguns dias de caminhada pela Província de León, encarei a temível, úmida e sinuosa subida em direção a O Cebreiro, na chamada “La Gran Ascension”, atingindo 1300m acima do nível do mar. Fiz essa subida num final de tarde, absolutamente sozinho, chegando ao destino bastante cansado, mas ainda disposto a assistir à missa dos peregrinos e rever o pessoal que não encontrava havia dias.
No dia seguinte, caminhei cerca de 39 km até Sarria e de lá saí em direção a Melide, onde vale a pena experimentar o famoso prato local – Pulpo – um tipo de lula servida no azeite. Já na Província de Coruña, passamos por Pedrouzo, onde dormi minha última noite na barraca na véspera da triunfal e emocionante chegada a Santiago de Compostela. Mal consegui dormir; permaneci olhando as estrelas e rezando, mais uma vez agradecendo a maravilhosa experiência pela qual eu estava passando. Antes de amanhecer, eu estava na estrada. Por volta das 6:30 da tarde, finalmente subi as escadarias da Catedral de Santiago de Compostela, finalizando a minha peregrinação. Foram 30 dias, cerca de 800 km, mais de um milhão de passos, dezenas de vilarejos, cidades, monumentos, igrejas, trilhas, caminhos pavimentados, pequenas estradas, picadas, campos, plantações, pastos, subidas, descidas, retas, curvas, muitos amigos novos, incontáveis dores por todo o corpo e muita, muita história para contar.
O Cebreiro
Missão cumprida. Fabio em frente a Catedral de Santiago de Compostela
Quando entrei na Catedral de Santiago, procurei repassar toda a minha vida. Prometi a Deus, a Santiago e a mim mesmo, que ali se iniciava uma nova etapa de minha existência, na procura da felicidade e no trabalho por um mundo melhor. Na verdade, ali terminava o meu Caminho de Santiago e recomeçava o meu caminho da vida ...
Outras imagens do caminho
Alguns equipamentos e comida para a viagem
Fabio encontrou uma família no Caminho
Muitas paisagens
Fabio e Tomas
Plantações também fazem parte das paisagens od Caminho
Torre da Catedral ao fundo
Parada para saborear o vinho em Irache
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Caminho de Santiago de Compostela


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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