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DIÁRIO DE BORDO

UMA TÍPICA FAZENDA PANTANEIRA
Texto e fotos: Danielle Giannini

Existem muitas formas de se conhecer o Pantanal Matogrossense. Uma opção é hospedar-se em uma fazenda tipicamente pantaneira e aproveitar os passeios que a natureza se encarrega de tornar belíssimos. Há algumas dessas fazendas espalhadas pelo Pantanal do Mato Grosso, umas delas é a Fazenda Ipiranga, localizada na cidade de Poconé, a 110 km de Cuiabá em estrada asfaltada, onde passamos dois dias movimentaos, eu e Thiago Visconti, meu assistente e sobrinho.

Vista da Fazenda Ipiranga

É comum as aves pousarem na vegetação aquática
Hoje com 7mil hectares, a fazenda do Sr. João Losano Eubank de Campos, veterinário e criador de gado e cavalo pantaneiro, é referência na realização de pesquisas científicas ligadas a diversas áreas, tendo servido de cenário para estudos de brasileiros e estrangeiros, em razão do ecossistema privilegiado e assessoria de guias conhecedores da região. Para o turista que é simplesmente curioso, a atenção dispensada pelo pessoal da fazenda é igualmente acolhedora e quem faz questão de recebê-los é o próprio João Losano, que se desmancha em sorriso ao avistar um carro chegando com novos hóspedes. Quem nos levou até lá foi o guia Rogério, da agência Anaconda, depois de três dias de estada no hotel Pantanal Matogrosso, (também recomendamos), no km 65 da Transpantaneira. No trajeto até a fazenda, demos a sorte de avistar muitas araras azuis, pássaros colhereiros (seu bico tem o formato de colher e as asas são “tingidas” de cor-de-rosa) e até uma cobra sucuri, a maior serpente do Pantanal, comum em áreas pantanosas, lagoas, rios e campos alagados – a que vimos tinha apenas dois metros de comprimento.

Pousada Piuval- A primeira leva de visitantes chegou em 1989 na base do improviso. João Losano conta que o dono de uma agência de turismo do Rio de Janeiro queria levar turistas para conhecerem sua terras e lhe pediu hospedagem. Como não tivesse infra-estrutura para receber muitas pessoas, combinaram que os grupos seriam de dez pessoas por vez, assim, cerca de 300 turistas passaram por lá naquele ano, inaugurando uma nova fase nos negócios da fazenda. Seu Losano gostou tanto da idéia, que mandou reformar a casa e logo surgiria a Pousada Piuval, lá mesmo na sede da fazenda. Hoje, lá trabalham seus filhos e sua esposa, o que torna o ambiente bem familiar.

Apartamentos da Pousada Piuval

Paisagem – a fazenda de Seu João Losano é belíssima, um exemplar autêntico da paisagem do Pantanal Norte, com mandacaru, aguapé (planta aquática flutuante), aroeira, cambará, fiqueira-mata-pau, ipê, além de uma plantinha cheirosa conhecida como assa-peixe. Para observar a fauna e a flora, basta olhar ao redor, por todos os lados, e apurar os sentidos, pois plantas típicas, mamíferos, aves, répteis não faltam. O próprio dono da fazenda se encarrega de levar os visitantes para conhecer os lugares especiais, e vai cheio de satisfação. Durante a seca, é fácil ver os animais próximos às lagoas, e na estação da cheia, é nos locais mais altos – cordilheiras e capões – que eles se concentram. Os capões são formados pelo acúmulo de sedimentos ao longo dos anos. Na Fazenda Ipiranga, Seu Losano tem vários capões para onde os animais correm quando a água começa a subir e conta que em certa ocasião seu pai, escavando um deles, encontrou vestígios de um povoado indígena, como vasos de cerâmica e outros utensílios diversos. Ninguém mais se interessou pelos achados arqueológicos, a atração mesmo é a paisagem imensamente plana e verde.

Poucos lugares do mundo tem um  pôr-do-sol como o do Pantanal

No Pantanal, os jacarés estão por todos os lados

Passeios – Andar a cavalo é uma das atrações de quem vai ao Pantanal, e se for no período de cheia, não tem problema, pois os cavalos pantaneiros atravessam valentemente as áreas alagadas. Para quem gosta de pesca, há barcos disponíveis que levam os turistas para pescar piranhas, atividade fácil devido à quantidade desse peixe nas águas do Pantanal. Na manhã seguinte à nossa chegada, meu sobrinho Thiago, o guia Rogério e dois simpáticos espanhóis que nos acompanharam desde o outro hotel decidiram pescar piranhas. Fui junto, é claro. O tempo amanheceu fechado e a temperatura caiu. Mas isso não foi nada para quem ficou numa canoa balançante (como as pessoas se mexem para pescar!!!), sabendo que a água estava cheia de piranhas e jacarés! Outras atrações, estas mais tranqüilas, são a focagem de animais, durante o dia ou à noite, e o passeio ao capão dos macacos, onde muitos macaquinhos andam de árvore em árvore em busca de castanhas, sementes, insetos e frutas - lá Seu Losano mandou fazer um mirante sobre uma das árvores para observar suas terras até onde a vista alcança.

O que não falta é piranha nas águas pantaneiras

O gado do Seu João Lozano nos encara com curiosidade

As araras-azuis descansam tranqüilas na varanda


Fizemos uma bela caminhada pela fazenda em busca de animais e encontramos vários, mas confesso que fiquei decepcionada por não ver nenhum tamanduá-bandeira, nenhum. Os pássaros são um espetáculo garantido, seja pelo vôo desengonçado dos papagaios ou pelo esconde-esconde dos tucanos (sim, fomos cercados pelos bois do Seu João Lozano quando tentávamos ver melhor os tucanos no alto de uma árvore – sorte que eles só estavam curiosos). Na volta das caminhadas vespertinas, pausa obrigatória para apreciar o pôr-do-sol, que no Pantanal é de tirar o fôlego. Também não se pode deixar de reparar nas “árvores-dormitório”, que ficam branquinhas, repletas de pássaros no fim do dia. Depois de tantas atividades, nada melhor que uma deliciosa comida caseira e uma boa prosa com Seu Losano e o pessoal da fazenda. Entre suas histórias, ele conta com satisfação que descobriu como salvar os tuiuiús da morte na rede elétrica que passa na Transpantaneira – calculou a abertura das asas, cerca de 2,20 metros, e percebeu que os fios deveriam ficar mais afastados. Depois das devidas alterações, praticamente não se viu mais a ave-símbolo do Pantanal morrer nos fios de eletricidade na região de sua propriedade. Por conta dessa e outras histórias, o ambiente na fazenda é tão hospitaleiro, que araras azuis ficam pela varanda, na cadeira de balanço, observando o movimento, provavelmente achando tudo muito bom.

O Pantanal: imensa planície inundável de 23 mil km² que cobre o extremo oeste do Brasil e partes da Bolívia e do Paraguai, onde a vida é regida pelas águas. Na cheia, a área é alagada pelo extravasamento dos rios da região, formando baías, lagoas e corixos. O colorido fica intenso, os animais se refugiam nas áreas mais altas – os capões e as cordilheiras. Normalmente as chuvas ocorrem entre dezembro e começo de abril, mas a planície fica coberta de água, até o final de maio, quando se inicia o período da vazante. Na seca, que vai de junho a novembro, surgem pequenas lagoas repletas de peixes, como a piranha, e jacarés; nelas se alimentam aves e outros animais, como catetos, quatis e queixadas. Nesse período, algumas lagoas podem mesmo desaparecer. Graças aos nutrientes depositados no solo depois de seca a água, a piúva ou ipê-roxo – árvore símbolo do Pantanal - floresce. Diversos ecossistemas abrigam muitas espécies de aves, peixes, répteis e mamíferos – tudo pode ser visto nas caminhadas pelas fazendas no Pantanal. Não é nada difícil ver jacarés, tuiuiús, onças, ariranhas, gaviões, cervos, socós, bugios e tantos outros animais e aves. A região do Pantanal está na faixa dos climas mais quentes e úmidos, com temperatura superior a 24 graus durante todo o ano. Mas previna-se: no inverno, de uma hora para outra, o tempo pode mudar e a temperatura cai bruscamente.
A fazenda Ipiranga fica no Pantanal Norte, região de Poconé, no quilômetro 10 da rodovia Transpantaneira, que vai até Porto Jofre. A estrada é movimentada até o Pixaim, km 62, onde estão concentradas pousadas e hotéis. Todo cuidado é pouco para dirigir por esta estrada, pois animais atravessam a pista com freqüência e não é raro encontrar comitivas tocando o gado de uma fazenda para outra. Os jipes e caminhonetes são os veículos mais indicados. Ao longo de todo o percurso, podem ser vistos muitos jacarés, principalmente nas águas que se acumulam sob as pontes, além de biguás e tuiuiús – ave típica da região.

Conheça também as atrações de Nobres, outro belo pedaço do Mato Grosso.

Araras-azuis

Tuiuiú - ave símbolo do Pantanal

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