Livro sobre livros em Paris

Por: Danielle Arantes Giannini

Como se não bastasse ter criado uma das mais famosas livrarias parisienses, sua fundadora, Sylvia Beach, fez o prestimoso favor de escrever um livro contando a história de seu empreendimento. É uma leitura deliciosa e obrigatória para quem gosta de literatura e de Paris. O livro nem de longe é um amontoado de fatos, nomes e datas, parece mais uma conversa íntima no pé do ouvido, e cada episódio tem um sabor, um charme, instiga. Syvia Beach, a mulher que teve a coragem de publicar o impossível Ulisses, do Sr. James Joyce (e até é capaz de convencer os desavisados a lê-lo), pensou em abrir uma livraria francesa em Nova York, mas desistiu dos planos e mudou-se para Paris para montar no ano de 1919 uma livraria americana com a intenção de difundir os novos autores e a literatura contemporânea do seu país de origem. O primeiro endereço foi a Rue Dupuytren, nº8, travessa da Rue de l’Odéon, na margem esquerda. O endereço não custou a atrair curiosos e amantes das letras, e em breve grandes nomes passaram a freqüentar e praticamente se instalar na livraria de Sylvia. Uma das primeiras freguesas foi Gertrude Stein, depois pisaram lá Gide, Ezra Pound, Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, que dedicou um capítulo do livro Paris é uma Festa à livraria, James Joyce, Man Ray, Berenice Abbott, Sergei Eisenstein e muitos, mas muitos outros. No início, era uma espécie de biblioteca em que os interessados se inscreviam e tomavam os livros de empréstimo, depois ganhou o contorno de livraria e quase virou editora, mas Sylvia só quis editar Ulisses e nada mais. Por fim, foi o QG dos intelectuais da época, principalmente escritores estrangeiros que estavam em Paris e usavam o endereço da livraria para receberem correspondências. O segundo endereço da Shakespeare & Company foi a Rue de l’Odéon, nº12, sucesso absoluto, que só foi vitimado por ocasião da segunda guerra mundial, que fez Sylvia baixar as portas da livraria para não abrir mais. Quando os Estados Unidos entraram na guerra, a nacionalidade americana de Sylvia e suas amizades judaicas chamaram a atenção dos nazistas e ela foi classificada como “inimiga”. Após recusar-se a vender um exemplar de Finnegans Wake, de Joyce, a um militar alemão, recebeu o aviso de que iram confiscar tudo. E tudo foi escondido no mesmo dia no terceiro andar do prédio onde ficava a livraria. Era o ano de 1941. Os alemães voltaram e não encontraram mais a loja, levaram a proprietária, que penou seis meses num campo de concentração. De volta a Paris, passou a viver escondida no Foyer des Étudiantes, da Srta. Sarah Watson, no Boulevard Saint-Michel, de onde saía disfarçada todos os dias para passar em frente à extinta livraria. Finalmente os alemães começaram a retirar suas tropas de Paris. O alívio só foi completo quando uma fileira de jipes subiu a rua e parou em frente a casa de Sylvia e de um deles alguém gritou o nome dela. Era Hemingway, ele foi lá para libertar a Rue de l’Odéon.

Se você for Paris hoje, não vai encontrar a Shakespeare & Company de Sylvia Beach, mas dê uma passada demorada na livraria de mesmo nome, aberta em 1951 por George Withman, na Rue de la Bücherie, nº37, que funciona nos moldes da antiga, para conhecer o legado da Sra. Beach. Para quem não puder ir até a França, a saída é assistir ao filme Before Sunset , Before Sunrise, estrelado por Ethan Hawke e Julie Delphy, ele um escritor americano que vai lançar seu livro na Shakespeare & Company e reencontra uma moça com teve no passado um relacionamento fugaz. De dentro da livraria eles saem para conversar enquanto andam por Paris. É uma festa!

SHAKESPEARE & COMPANY
Sylvia Beach, Ed. Casa da Palavra
Envie um e-mail lugaresdomundo.com - lugares, pessoas e histórias que você não pode deixar de conhecer!
Página Principal
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Design: Equipe lugaresdomundo.com
Direitos Reservados. Proibida reprodução total ou parcial sem autorização.