Texto: Alerrandro Farias
Fotos: Postais de arquivo pessoal
Para
mim, escrever sobre a Guatemala é como discorrer sobre um filme que eu
tenha visto e que me tenha feito voltar ao passado, ora viajando pelo o Império
Maia, ora visitando belas cidades construídas sob o domínio espanhol
nas Américas.
Por se tratar do coração geográfico e cultural do povo
maia, a Guatemala - ou "Guatebuena", em oposição à
palavra "mala", que quer dizer "má" em espanhol ,ou
simplesmente "Guate", para os apaixonados moradores daquele país
- é uma região singular na América Central.


O povo guatemalteco é alegre e adora dar informações
quando solicitado. Talvez isso se deva ao enorme fluxo de turistas que chegam
à capital e ao interior do país, sobretudo oriundos da Europa.
Como o percentual de indígenas é elevado (quase 45% na população)
- se comparado ao Brasil, por exemplo, o sincretismo religioso é marcante,
com especial destaque para o "pueblito", de Chichicastenango. Com
acesso difícil e localizada numa zona montanhosa do interior, "Chichi"
impressiona pelos festivais religiosos, onde ritos maias se misturam a cultos
cristãos nas praças e nas inúmeras igrejas católicas
de estilo barroco. Se esse "mix" de crenças causa admiração
a nós brasileiros, acostumados com a baianidade nagô daqui, quem
dirá aos europeus.


Com
108 mil Km², seu território é pouco maior que o estado
de Pernambuco, sendo ocupado por aproximadamente 11 milhões de pessoas,
o que corresponde a uma população só um pouco inferior
à do Rio Grande do Sul. Esses números tornam a Guatemala o país
mais populoso da América Central e o terceiro maior em extensão.
Imagino
que o relevo tenha ajudado bastante a proteger os descendentes maias de massacres
na época dos espanhóis. Dois terços do país é
montanhoso e pelo menos 30 vulcões pontuam o território de leste
a oeste - alguns, inclusive, em plena atividade -, sendo 4200m a altitude
do mais elevado. Essas áreas mais altas, que por vezes oferecem um
frio intenso, contrastam com as planícies costeiras de clima mais quente.
Andréa e eu adorávamos o clima da capital, onde morávamos,
que mantinha uma fantástica média anual de 20ºC!!!
Recordo-me de pelo menos três situações que me impressionaram
muito: na primeira, estávamos viajando eu e dois colegas, um russo
e o outro espanhol, ambos funcionários da ONU, pelo interior de Guate
em busca de umas fontes termais. O tempo fechou e as chuvas se tornaram fortíssimas!
Era 2 de novembro de 1998, dia de finados. Nunca vou esquecer. Decidimos interromper
a viagem e iniciar o regresso à capital. A cada cidade que passávamos
víamos a confusão que a chuva deixara: estradas obstruídas
por desmoronamentos, bairros sem luz elétrica, ruas alagadas, as pessoas
atônitas, sem saber o que mais poderia piorar. Só quando chegamos
a nossos apartamentos e pudemos acompanhar a mídia televisiva é
que nos demos conta do que estava acontecendo: o furacão passara no
Mar do Caribe e seus reflexos se fizeram sentir com veemência onde estávamos.
Países como Honduras, EL Salvador e Nicarágua, vizinhos nossos,
foram duramente castigados pelo famoso "Huracán Mitch".


Numa
segunda vez, eu estava numa base militar de operações do Exército
Guatemalteco, bem próximo à fronteira com o México, na
região de Chiapas. Era hora do almoço e conversávamos
tranqüilamente à mesa. De repente, uma sensação
estranha tomou o ambiente. Sentados, vimos um pendente que costumava iluminar
o ambiente à noite, balançar aleatoriamente. O chão sob
os nossos pés parecia que havia se "descolado" de uma camada
imediatamente abaixo dele e a impressão era de que estávamos
num barco à deriva. Foi um instante que durou, no máximo, uns
8 segundos, mas que deixou todos ali presentes boquiabertos!! Era um terremoto
cujo epicentro fora localizado no Departamento de Izabal, no litoral caribenho.
Os estragos foram terríveis naquela região.
Na
terceira situação inusitada, o sentimento que me tomou teve
dois momentos bem separados no tempo e no espaço.
Era
janeiro de 1999 e eu estava visitando o famoso vulcão Pacaya, a uma
hora e meia de carro da cidade de Antigua Guatemala (outra jóia da
arquitetura espanhola). A caminhada, após a chegada de Van, foi um
pouco cansativa. O nosso destino nem estava tão longe, mas a diferença
de altura para vencer em tão pouco espaço era grande, o que
deixou o grupo ofegante. No topo do vulcão, a paisagem era única.
Afinal estávamos na cratera de um vulcão ainda ativo e sob rígido
controle sismográfico de geólogos. Havia fendas que mostravam,
no seu interior, uma massa incandescente, alaranjadíssima ! O cheiro
de enxofre prevalecia no local e todos estavam fascinados com o negro-acinzentado
dos pedregulhos que predominavam na cratera, que nada mais eram do que resultados
da última erupção, anos antes. Mas como eu ia dizendo,
o que me marcou foi que, meses depois, já no Brasil, eu estava com
a família assistindo a um telejornal quando foi noticiado - acredite!-
a erupção do vulcão Pacaya, o mesmo que eu havia visitado
tempos atrás...por um momento, pensei: e se estivéssemos lá
no momento da erupção? Que loucura seria...
Outra
lembrança superlegal que tenho de Guate é do aprendizado da
língua espanhola. O país é reconhecido mundialmente pela
qualidade do seu espanhol. Em Antigua Guatemala, ex-capital, há pelo
menos 60 escolas reconhecidas pelo ensino do idioma. Adicione-se a isso os
imponentes vulcões El Agua e El Fuego, nas redondezas - um cartão
postal perfeito para quem deseja aprender a língua de uma forma original.
As aulas são individuais e normalmente incluem passeios pela cidade
e refeições em restaurantes típicos. Tudo isso com seu
professor que, além de tudo, acaba se tornando um guia turístico.
Foto:
Cristina Gyselynck Rösel

Alerrandro
Leal Farias é Capitão de Engenharia do Exército Brasileiro
e viveu durante um ano na Guatemala, onde representou o Brasil na atividade
humanitária de desminagem nos países participantes da MARMINCA
(Misión de Asistencia para la Remoción de Minas en Centro America).
A desminagem é uma atividade típica da formação
dos oficiais de engenharia graduados na Academia Militar das Agulhas Negras
(AMAN), em Resende-RJ. Os países atualmente participantes da MARMICA
são: Guatemala, Honduras, Nicarágua e Costa Rica (recebedores
do auxílio); Brasil, Venezuela, El Salvador, Colômbia e Argentina
(fornecedores de auxílio com material humano), e Estados Unidos, Dinamarca,
Suécia, Japão e Alemanha (alguns dos países doadores
de recursos financeiros para a missão). A MARMINCA está sob
a égide da OEA e está subordinada diretamente à Junta
Interamericana de Defesa (JID).
Andréa Giulietti Farias é psicóloga, casada com Alerrandro
Farias e escreveu os postais que ilustram esta matéria durante sua
permanência na Guatemala.
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