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Texto
e fotos: Pf. Astromar Cleomenes*
Gettysburg
é uma pequena cidade de 10.000 habitantes, no interior do Estado da
Pennsylvania. Fica a cerca de 140 km de Washington, a capital americana. Há
séculos aquela é uma região calma, bucólica, dedicada
à agropecuária. O que levaria então essa cidadezinha
aparentemente sem atrativos chegar aos bancos escolares de todo o país
e ter um fluxo ininterrupto de visitantes há 141 anos ?
Em
Gettysburg foi travada a maior batalha da Guerra Civil Americana. Os exércitos
inimigos do Norte e do Sul, com um contingente de 150 mil homens, enfrentaram-se
durante os dias 1, 2 e 3 de julho de 1863 e sofreram 53 mil baixas, um pouco
menos do que a quantidade de soldados americanos mortos na Guerra do Vietnã.
A batalha de Gettysburg foi vencida pelas tropas do Norte e inverteu o rumo
da Guerra Civil, até então totalmente favorável aos rebeldes
do Sul.

Decorridos 141
anos, Gettysburg pouco mudou desde que o último tiro foi disparado,
desde que o último soldado voltou para casa. Quem visitar Gettysburg
verá os campos de batalha preservados, museus com histórias
e objetos de comandantes e de soldados comuns e poderá passear por
uma cidade do século XIX, com seus restaurantes típicos da época,
galerias de arte e de antiguidades. Provavelmente encontrará pessoas
trajadas com as roupas daqueles tempos. Civis e militares. Durante feriados
e fins de semana, trechos da batalha são revividos por centenas de
historiadores (“reenactors”) caracterizados como combatentes do
Norte ou do Sul. Eventualmente, poderá até mesmo encontrar um
participante verdadeiro da batalha...



Gettysburg
tem uma localização geográfica peculiar, pois é
entroncamento de uma dúzia de estradas e isso provocou o acaso que
fez os dois exércitos para lá convergirem.
Após dois anos de guerra, o Sul das plantações de fumo
e algodão, o Sul da escravidão, alcançara vitórias
espetaculares diante do Norte abolicionista de Abraham Lincoln, do Norte rico
em indústrias, recursos financeiros e armas. O Norte, engolido por
politicalha e por incompetência militar, trocava seguidamente seus comandantes.
O Sul tinha os melhores generais. Por um lado, as vitórias do Sul pobre
desmoralizavam o Norte rico. Por outro lado, o Sul ia sofrendo baixas e perdia
suprimentos, se enfraquecia. Para o Sul, a vitória na guerra viria
do desgaste político do Norte; para esse, a única alternativa
seria a derrota definitiva do exército sulista. Assim, comandado por
Robert E. Lee, o exército do Sul, invadiu a Pennsylvania para buscar
suprimentos e atrair o Norte para mais uma derrota, que poderia encerrar a
guerra.

Casualmente,
no dia 30 de junho de 1863, um destacamento sulista entrou em Gettysburg à
procura de sapatos para os estropiados e descalços soldados de seu
exército. Ao invés de encontrar sapatos, encontrou uma brigada
de cavalaria do Norte. A partir daí, mensageiros dos dois lados partiram
em todas as direções para avisar o que tinham visto. Foi assim
que para lá convergiram 150 mil homens.
No primeiro dia da batalha, 1 de julho de 1863, o Sul tinha superioridade
numérica e levou a melhor. As tropas do Norte acabaram o dia fugindo
em disparada pelas ruas de Gettysburg, ocupando em seguida colinas importantes
na entrada da cidade.

Durante
a noite, o Norte se fortaleceu com a chegada milhares de homens. E adotou
uma estratégia defensiva, protegendo-se atrás dos muros de pedra
das colinas ocupadas. Nos dois dias seguintes, o Sul atacou incessantemente
e foi fragorosamente derrotado na tarde do dia 3 de julho, ao tentar um ataque
frontal, em campo aberto, contra o Norte, superior em artilharia e infantaria,
com um novo e competente general, George G. Meade e, acima de tudo, muito
bem posicionado no terreno. Milhares morreram em combate, milhares foram feridos.
Toneladas de armamento e munição viraram sucata. O Sul começou
sua retirada no dia 4 de julho; a notícia do combate correu rapidamente
e, nos dias seguintes, visitantes de todo o país começaram a
chegar. Voluntários para ajudar os feridos, caçadores de “souvenirs”,
curiosos, fotógrafos, turistas, além de mães, pais e
filhos à procura de notícias de seus entes queridos que ali
haviam combatido.

Depois
de Gettysburg, o Sul nunca mais foi o mesmo. Lutou ainda por mais dois anos
até a rendição, em abril de 1865. O sacrifício
dos 53 mil soldados que caíram naquele campo de batalha foi reconhecido
e homenageado pelo Presidente Abraham Lincoln, em novembro de 1863, quando
fez um discurso histórico na inauguração do cemitério
militar da cidade.
Tudo
isso fez a fama de Gettysburg. As crianças americanas aprendem na escola
o discurso de Lincoln em Gettysburg. Quando o último soldado da Guerra
Civil morreu, em 1956, Gettysburg já estava coberta de monumentos levantados
pelos veteranos que lá combateram, seja para lembrar um episódio,
um grupo de colegas ou um general. Gettysburg é hoje um Parque Nacional.
Diariamente, ônibus escolares chegam à cidade com estudantes
que disputam as atrações com centenas de turistas e historiadores.
O Parque Nacional de Gettysburg é um lugar lindo. Cheio de cores, de
flores, de pássaros, esquilos, etc. Cheio de paz. Pode-se percorrer
os locais da batalha de carro ou a pé. Em horas ou em dias.
Quem vai a Gettysburg deve conhecer e gostar de história. Pode estudar
antes ou aprender lá. Guias treinados estão no Visitor Center
exatamente para isso.


Mas
existem histórias em Gettysburg que não estão nos livros
de História. O que dizer da visão de um oficial de cavalaria
com uniforme completo do Norte que passa calmamente com seu cavalo em frente
a um grupo de visitantes e, ao chegar do outro lado da estrada, desaparece
? Ou de um grupo de “reenactors”, que, no meio de uma passagem
no bosque encontra três soldados que lhes entregam uma caixa de munição
datada de 1863, nunca utilizada e novinha e depois desaparecem na neblina
?
E
aquela exibição precisa de marcha e ordem unida militar que
um grupo de diplomatas viu do alto da colina na planície logo abaixo
... em um dia em que nenhum grupo de “reenactors” estava no parque
? E o soldado ferido que pede água a um visitante que estava no parque
quando já anoitecia ? E o ruído da tropa marchando de madrugada
em frente à janela de um hotel com vista para o campo de batalha ?
E os gritos de feridos no subsolo do Gettysburg College ocupado durante a
batalha e semanas depois como um hospital de campanha ?
Uma explicação para esses eventos sobrenaturais pode estar no
fato de tantos e tantos jovens terem tido uma morte súbita e violenta.
Pode ser que suas almas não tenham descansado, continuando a vagar
nos lugares em que viveram seus últimos dias. Para quem gosta desse
tipo de história e emoção, a cidade oferece diariamente
os Ghost Tours. Caminhadas com guias especializados para ouvir relatos nos
locais onde dizem ter acontecido repetidas vezes.


Gettysburg
à noite se transforma. Nas janelas das casas da época aparecem
velas acesas. Segundo a tradição, isso significa que naquele
lar se espera a volta de um alguém muito querido que foi para a guerra.
E ainda está no túnel do tempo.
-Informações
adicionais sobre Gettysburg poderão ser encontradas nos sites http://www.gettysburg
.com e http://www.nps.gov/gett/
E a história completa da batalha está no filme épico
“Anjos Assassinos” (“Gettysburg”) disponível
em VHS ou DVD em algumas locadoras aqui no Brasil.
Pf.
Astromar Cleomenes* é o pseudônimo de um engenheiro e estudioso
da Guerra Civil Americana, que já esteve duas vezes em Gettysburg.
Na primeira vez, em 1997, ficou dois dias na cidade. Na segunda, em 2001,
ficou uma semana. Nas duas ocasiões encontrou-se com fantasmas. Do
Norte e do Sul.
DESARRUMANDO
AS MALAS
Gettysburg
-
Estados Unidos
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