

Taí um bicho curioso. Gosto dele. Vem balançando o rabo grande que só, parece um espanador daqueles que antigamente se usava nas casas para limpar prateleiras, estantes, bibelôs e outros quetais. E a agilidade para capturar formigas desavisadas, então, shlep, lá vai um monte delas para o bucho do tamanduá. Dizem que ele tem uma sustância pegajosa na estreita e compridíssima língua que faz as formiguinhas ficarem presas ali, imóveis, crocantes. É bonito, simpático, dá vontade de ver um. Então lá fui eu visitar o Zôo de São Paulo para apreciar os tamanduás de perto, que beleza, do jeito que imaginei, bati uma foto dele para guardar de recordação. Ali na jaula, coitado, foi fácil ver, apontar satisfeita para ele e exclamar: ó o tamanduá, é o tamanduá, assim com essa insensibilidade que se regozija mesmo ao ver a criatura tristonha, encarcerada para deleite dos visitantes. Alguém me convenceu de que ele já nasceu cativo, portanto não se importava com o destino de não poder correr solto por ali. O pesar pelo animal tão gentil, no entanto, teve que dar lugar à euforia de vê-lo enfim. Mas eu queria vê-los soltos, aos montes, os tamanduás. Reservei uma passagem aérea para o Mato Grosso, vibrei, nas minhas andanças pelo Pantanal eu toparia com um tamanduá de qualquer jeito, acreditei mesmo que fosse minha sina, não tinha como não acontecer este encontro. Tão logo fui apresentada ao guia local que me acompanharia Transpantaneira a dentro, já fui avisando: vim aqui para ver tamanduás. Poucas horas depois de me embrenhar por uma fazenda na beira da Transpantaneira, o rapaz avisou prestativo: acabou de passar um tamanduá por aqui. Sim, mas cadê o bicho? Ele tratou de descrever as pistas, para que eu pudesse perceber por conta própria a proximidade de um tamanduá. Disse que o cupinzeiro estava com um lado despedaçado e as marcas no chão indicavam que um guloso tamanduá acabava de se refestelar com os cupins ... e sumir mata a dentro. Ótimo, iríamos atrás de outros cupinzeiros, e isso tinha de monte, e estavam altos naquele ano; segundo o dono da fazenda, quanto mais alto o cupinzeiro, era sinal de que a água ia subir mais na estação da cheia. Espertos os cupins, quer dizer, nem tanto, pois quanto mais eu e meu guia nos embrenhávamos pela trilha, era só cupinzeiro vazio e despedaçado que encontrávamos.
Aqueles tamanduás estavam com uma fome irritante. Escureceu, nada de ver o bicho, só restava dormir. Alvorecer. Todos de pé, café da manhã reforçado e pé na trilha ... e nada de tamanduás. O rapaz que me conduzia pelos caminhos do Pantanal era conversador, contou empolgado que na semana anterior um grupo de gringos deu uma baita sorte quando passava naquele mesmo lugar, os caras viram um grupo de cinco tamanduás devorando cupins fresquinhos. Ah, que satisfação, chegaram perto, bem pertinho, pois o tamanduá é meio surdo, segundo o guia, sei lá, fotografaram, filmaram, espiaram a comilança e voltaram para o estrangeiro com a fascinante experiência de ver tamanduás para contar para a família. E eu lá, atrás do tamanduá. Vi tudo quanto é bicho, menos ele. Veio o dia seguinte, o outro dia, fui para outra fazenda, passou mais um dia e ... hora de voltar para casa sem ver o tamanduá. Tá bem, fazer o quê? Entrei no avião cabisbaixa, pensando no tamanduá-bandeira que dorme enrolado no rabo felpudo para se esconder de predador – aprendi essa lá no Pantanal – reclinei o assento e me resignei. A vida é assim, o que a gente busca parece que às vezes acabou de passar quando você chega. Pelo menos vi as pegadas dos tamanduás e isso me conformou de certa forma porque era a prova de que eles estavam por lá, livres, sem grades, donos de sua própria língua. Bom isso, não?! Estou pensando nessa história de vida, se pelo menos a gente encontrar vestígios do que deseja, então é porque aquilo existe, e se existe, eu quero ver. O jeito é correr para não chegar atrasado. Por enquanto, confesso, vou me contentando com o tamanduazinho de cerâmica que ganhei de um amigo que esteve na Chapada dos Guimarães e se lembrou dessa história. O bicho está enfeitando uma estante de livros; pelos menos assim estou livre de formigas e cupins!

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