Conta
a história que o Deus Sol, ao perceber que os homens viviam em estado
de selvageria, condoeu-se e enviou à Terra um casal de irmãos
que fundaria um império com um modo de vida mais civilizado. Ele chamava-se
Manco Capac e ela, Mama Ocllo, e apareceram numa ilha do lago Titicaca, na
Cordilheira do Andes, na América do Sul, trazendo um cajado de ouro
que deveriam lançar ao chão em todo lugar em que chegassem.
O império seria formado onde o bastão afundasse. O lugar eleito
pelo Sol foi Cuzco, no Peru, que em pouco tempo tornou-se o centro do domínio
inca. Esta é apenas uma das versões da origem mítica
desta civilização, que sequer pode ser situada no tempo. É
bem difícil saber com precisão como surgiu este povo, uma vez
que não deixou nenhum documento escrito.Pelo menos não como
se esperava, pois seu sistema de escrita baseava-se em ideogramas e em nós
de lã colorida, ou seja, indecifrável! Os estudiosos acreditam
que sua história começou no séc.12 da nossa era e que
em apenas um século o império já estava formado, abrangendo
os atuais territórios do Peru, Equador, Bolívia e norte do Chile.

A
palavra inca era empregada para designar o soberano que reinava sobre o povo
ketchua, o rei. O objetivo do rei era promover uma unificação
cultural nos Andes, pregando a "religião do Sol". Talvez
a mais poderosa arma desta gente fosse nada menos que a cultura.
Aos artistas era reservada a função de documentar os princípios
religiosos e filosóficos, principalmente através de símbolos.
Os materiais usados nos artefatos variavam de acordo a localização.
Assim, os que viviam mais ao alto da Cordilheira dos Andes, onde praticamente
não há vegetação, dispunham apenas de pedras e
metais. Já nas regiões mais baixas, abonada com rica natureza,
havia madeiras, bambus e junco para se retirar fibras. Eles costumavam fazer
trocas de matéria-prima entre estes lugares através dos chamados
"xamãs", que se incumbiam de integrar os povos e difundir
os princípios religiosos.

Uma
das mais significativas expressões artísticas se dava no trabalho
com pedras, em razão da profunda afinidade com a terra e as rochas.
Eles acreditavam que as esculturas de figuras humanas pudessem ganhar vida
própria. Mas as formas preferidas eram as geométricas e as que
imitavam o meio ambiente. Neste último caso, era comum fazerem nas
pedras o recorte de uma montanha, como se a obra fosse uma extensão
do meio ambiente. Em pedras, construíam edifícios e terraços
bem elaborados e funcionais do ponto de vista do controle militar e da agricultura.
Destacava-se ainda nos Andes os trabalhos em metal, cerâmica e os têxteis,
sempre exaltando a simplicidade de linhas e formas.Os têxteis serviam
até como presentes para fortalecer as relações políticas,
como recompensas, instrumento de doutrinação e meio de identificação
étnica. Tecer era uma atividade comum a toda a população
e totalmente controlada pelo governo, que cobrava imposto sobre a atividade.
Desde os mais velhos e enfermos até as crianças teciam ou urdiam
conforme suas habilidades. A roupa do dia-a-dia era chamada awaska e as vestimentas
finas, qompi, que se dividiam em qompicamayoes - tecidas pelos homens como
tributo ao Inca - e aclla - feita pelas mulheres para uso real e religioso,
ambas de privilégio dos nobres. A tecnologia têxtil dos incas
era insuperável na época. Comumente tecia-se nas roupas símbolos
religiosos e formas geométricas. O curioso é que o rei padronizava
as estampas das roupas da população em linhas simplificadas
e com poucas cores, enquanto seu próprio figurino era ricamente adornado
com inúmeros símbolos que não se repetiam. Alguns tecelões
escolhidos pelo Inca eram responsáveis pelo quipu, a escrita da época
feita em peças de nós de lã colorida, algumas com mais
de 2 mil fios. Nelas havia informações sobre o censo, estocagem
de alimentos, impostos, astronomia e até história e poesias.



Além
dos fios, os incas eram hábeis com os metais, especialmente o ouro,
a prata e o cobre, abundantes na região. Grande parte das figuras gravadas
eram divindades. Eles já conheciam as propriedades energéticas
destes materiais e faziam braceletes e broches de cobre que, em contato com
o corpo, ajudavam na renovação das células, além
de proteger de doenças reumáticas, entre outras. Uma das obras
mais impressionantes deste povo foi elaborada no palácio real e era
nada menos que um jardim adornado com esculturas em ouro e prata, reproduzindo
todos os exemplares da fauna e da flora da América do Sul, em tamanho
natural. Certamente, um capricho de rei numa época em que o ouro tinha
valor meramente decorativo.
No
fundo, a vida dos incas refletia-se na arte e vice-versa. Tanto é que
em muitas peças de cerâmica eram desenhadas cenas do cotidiano,
rituais religiosos, além dos símbolos da gastronomia. Tudo justificável,
já que para os andinos a função da arte era plástica,
ideológica e, acima de tudo, espiritual. As peças utilitárias
feitas em cerâmica serviam para transportar água e grãos.
Os artistas eram considerados seres dotados de dons especiais, capazes de
promover a renovação espiritual. Tanto desenvolvimento cultural
tinha os dias contados. Quase três séculos depois de fundado
o império, chegaram em terra firme no ano de 1492 os invasores espanhóis.
O
povo e a cultura inca seriam aniquilados com a insensatez e a brutalidade
que caracterizava todos os exploradores europeus. Praticamente nada restou
da cultura inca em solo americano, exceto o que estava enterrado. Do que não
foi destruído, peças representativas encontram-se em museus
da Bolívia, Peru, Equador e Europa.
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ARTE
E ARTESANATO
A
arte Inca
Texto:
Danielle Giannini |
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