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Nos Estados Unidos, New Orleans é sinônimo de diversão certa. A boa mistura de raízes latinas, comidas típicas e clima musical resulta no tempero único que é essa cidade do estado sulista da Louisiana, construída à beira do Mississipi, e que possui, atualmente, um dos mais movimentados portos do país. Aqui, o trânsito é mais bagunçado, o americano é mais relaxado, há um ar de decadência pelas ruas, nos casarões antigos, desgastados pelo tempo, no olhar dos velhos moradores. Mas há também turistas por toda parte, música nas esquinas, o movimento dos negócios impulsionados pelo comércio portuário.

Constantemente evocada como o “berço do jazz”, a cidade tem encantos que se estendem para além do gênero musical, como a arquitetura, que traz as marcas de uma colonização peculiar, em se tratando de solo americano.

O estado da Louisiana foi o único a ser colonizado pelos franceses, na época do reinado de Luís XIV, em 1699 (“Louis”, em francês, daí o nome do estado). “La Nouvelle Orléans” foi fundada em 1718 e governada pela França e pela Espanha durante 100 anos. A cidade abriga hoje, aproximadamente, 40 mil construções listadas no Registro Nacional de Lugares Históricos (National Register of Historic Places). Nos 120 quarteirões do French Quarter, o bairro mais famoso, topa-se com esses tesouros da arquitetura aqui e acolá, sem muito esforço, muitos remontando à época da fundação da cidade.

Casarões de dois e três andares, de estilo hispânico, eles dão à cidade um certo ar de decadência, com suas pinturas descascadas, pé direito altíssimo, ostentando grandes varandões adornados por graciosas grades de ferro trabalhadas, que por sua vez escondem janelas largas, divididas em duas folhas. Lá dentro, o assoalho quase sempre é de madeira, daqueles que às vezes rangem quando se pisa no lugar certo, o mobiliário é rústico, os lustres imponentes. E plantas, muitas plantas que crescem inadvertidamente, insolentemente, no calor úmido do sul americano.

Percorrendo as ruas de chão de pedra do Vieux Carré a pé (a versão francesa do nome desse bairro), descobrem-se as tantas lojinhas de antigüidades, as casas de doces, os restaurantes descontraídos e os mais sisudos, os lindos pátios escondidos na parte de trás das residências particulares. É nessa área que ficam também os vários bares, responsáveis pela tradição farrista da cidade. Alguns costumam fechar somente uma hora por dia, para a limpeza.

No restante do tempo, bebe-se à vontade e ouve-se música, nem sempre de boa qualidade. A Bourbon Street, rua congestionadíssima em tempos de festividades, é o lugar mais provável para se presenciar um flash, movimento rápido em que as garotas (às vezes não tão jovens assim) levantam a blusa, deixando à mostra os seios, em troca dos beads, colares adornados que lembram aqueles havaianos.

Fazendo jus à fama de festeira, New Orleans tem seu carnaval também. O Mardi Gras faz parte da vida da cidade tanto quanto a política, o tempo e a economia, e atrai multidões de turistas, gerando milhões de dólares. As festividades da "Terça-feira Gorda" começam no início de janeiro e culminam na terça-feira antes da Quaresma, 40 dias antes da Páscoa. Também chamado de "Carnival" (carnaval) pelos americanos, tem sido comemorado na cidade desde 1766. Os extravagantes bailes e desfiles são produzidos pelos clubes masculinos (alguns por clubes femininos) e cada um deles elege um Rei, uma Rainha e uma Corte entre os seus mais proeminentes sócios. A escolha é mantida cuidadosamente em segredo até a Terça-feira Gorda ou até o dia do desfile; a elaboração de fantasias, coroas e adereços que acompanham a honra de ter sido eleito 'realeza' costumam custar somas imensas.

Cidade que tem em suas raízes a tradição do catolicismo, New Orleans hospeda também a catedral católica mais antiga em atividade nos EUA, um dos orgulhos arquitetônicos da cidade. Localizada no French Quarter, na Jackson Square, a St. Louis Cathedral, foi originalmente construída em 1724 e reconstruída duas vezes, após sofrer um incêndio e a catastrófica passagem de um furacão.
E quanto ao jazz? Bem, é fato que o jazz tradicional está, aos poucos, desaparecendo de New Orleans, dando lugar ao blues, ao R&B, ao funk e ao rock. Mas os experts garantem que ainda há chance de se escutar a música dos velhos tempos em lugares como o Spotted Cat ou o Donna’s.
Há ainda a possibilidade de se conhecer um pouco da tradição musical da cidade em seus famosos eventos tais como o New Orleans Jazz and Heritage Festival, que acontece entre abril e maio, e o French Quarter Festival, em abril, e lembrar que foi nos nightclubs de Storyville, bairro que floresceu entre 1897 e 1917, que Louis Armstrong, Buddy Bolden, Jelly Roll e King Oliver tiveram suas primeiras chances.

Um dos aspectos mais peculiares da cultura dessa cidade da Louisiana, juntamente com o museu do Voodoo e as lojas de Voodoo, é o Jazz Funeral, uma tradição que remonta aos costumes dos escravos africanos trazidos para o trabalho na lavoura de algodão, principalmente. A preocupação, na época, era a de se proporcionar um enterro decente aos

seus companheiros, incluindo aí o fundo musical, que auxiliaria na celebração dos muitos aspectos da vida, inclusive a morte. No caminho para o cemitério, a banda encarregada ia tocando algo mais lento, próprio para o momento de luto. Já na volta, atacaria com a um tanto agitada “When the Saints Go Marching In”. Há os que afirmem que o tradicional Funeral de Jazz de New Orleans faz tão parte das tradições culturais da cidade quanto seus pratos de arroz com feijão vermelho.
Aqui, tradição e boa mesa são companheiras para todo tipo de refeição. Num almoço trivial pode-se escolher uma picante gumbo soup, da cozinha Creole, na qual frutos do mar e lingüiças de tipos variados compõem uma mistura exótica à primeira vista, mas de sabor surpreendente, ou então, sanduíches apetitosos, de nomes diferentes: a Muffaletta é uma combinação de pão ciabatta, salame, mortadela, queijo e pickles; o Po-Boy é feito de pão francês, camarão frito e fatias de roast-beef, tudo com muito molho e uma pitada de Tabasco. Com opções assim, quem preferiria um gorduroso hambúrguer? Mas eles estão lá também, já que a tradicional comida americana não deixa de marcar presença, nem mesmo nesse local em que se viaja no tempo. À tardinha, um spresso acompanhado de beignets, espécie de bolinho de chuva com muita canela, saboreados nos pequenos e acolhedores cafés, é a melhor pedida.
Se a noite exige um momento mais elegante, os restaurantes disponíveis não fazem feio: os chefs de New Orleans são famosos por suas inovações saborosas. Pratos à base de peixe e frutos do mar são bastante disputados, mas há boas e modernas opções de cozinha contemporânea, além de ótimos sushis e sashimis.
A cidade abriga mais de 3mil restaurantes, muitos deles operados pelas mesmas famílias há gerações. Um capítulo à parte é a comida Creole e a Cajun, que parecem influenciar quase todos os sabores locais. Cajun é o encontro da cozinha francesa com a do sul americano, resultando num
estilo rústico e encorpado de refeição. Um dos pratos mais comum do sul da Louisiana, o Jambalaya, é um típico representante dessa cozinha, no qual frango, frutos do mar e lingüiças defumadas são cozidos todos juntos e servidos sobre arroz branco. Os pratos Creoles (nome pelo qual os colonizadores franceses eram conhecidos) são um tanto mais sofisticados, mas ainda assim, produto desse peculiar encontro europeu, africano e a tradição sulista americana. O acento aqui são os molhos robustos, os condimentos locais e os frutos do mar. Ambas as cozinhas abusam do trio pimenta verde picadinha, cebola e aipo.
Uma variedade de pratos à base de peixe, camarão... pudera! A cidade é cercada por água. Ao norte, está o lago Pontchartrain, ao leste, o Golfo do México, ao sul, o Mississipi, e ao oeste, a Bacia de Atchafalaya. Um passeio muito requisitado pelos turistas é o dos barcos a vapor que percorrem, por algumas horas, um pequeno trecho do Mississipi. Se o orçamento e o tempo disponível permitirem, pode-se optar também por um mini-cruzeiro de três dias a uma semana. Esse rio é um dos mais extensos na geografia do país e tem uma grande participação nas exportações da sua agroindústria. Em New Orleans, os steamboats turísticos imitam os barcos a vapor de uma época em que estes serviam para transportar rio acima ou rio abaixo, algodão, apostadores de jogos de azar e o jazz.

Em terra firme, a pedida é passear num street car. Infelizmente, a linha Desire (desejo), imortalizada na peça “Um Bonde Chamado Desejo”, do dramaturgo Tennessee Williams em 1947, foi extinta em 1948. Mas é possível utilizar os serviços da St Charles Avenue Car Company, em perfeito funcionamento ainda nos dias de hoje, e conferir, durante o trajeto, os casarões coloniais de encher a vista do Garden District, bairro calmo e elegante, cujos canteiros abrigam carvalhos que datam de antes da Guerra Civil, tendo sobrevivido a furacões, enchentes, ataques de insetos e incêndios

O charme da região vai para além da cidade. Há opções de passeios no campo e no brejo. O roteiro da River Road Plantations é belíssimo de se fazer. As estradas, fáceis de se rodar, levam aos palacetes que outrora foram a sede das grandes propriedades cultivadoras de açúcar e algodão do sul do país. Entre elas, destacam-se a Dastrehan Plantation, uma casa no antigo estilo dos índios do oeste que data do século XVIII e é considerada a mais velha fazenda do vale do baixo Mississipi. A mais conhecida do Estado, Oak Alley Plantation, é uma fazenda do século XIX que chama a atenção pela sua imponente entrada, um corredor ladeado de carvalhos centenários, um local que já serviu de locação para muitos filmes.

Já os Swamp Tours (tours pelos pântanos) da Louisiana, extremamente populares e organizados por várias companhias, são para os que preferem um pouco mais de aventura. A maioria das excursões fica a menos de uma hora do centro da cidade e pode-se fazer passeios de barco por canais que focalizam a vida selvagem em seu habitat natural, algumas delas guiadas por ecologistas e estudiosos.
Com tanta coisa para se fazer, tantos lugares a conferir, o melhor é permanecer na cidade por alguns dias. E opções de hospedagem, claro, não faltam. Há os hotéis das grandes cadeias, aqueles em que os quartos e a recepção são sempre

idênticos e impessoais, não importando se está em Nova Iorque, Tóquio ou São Paulo. Mas, uma vez no espírito sulista, porque não optar pelos charmosos bed and breakfast? A diária nem sempre é tão em conta, mas essas hospedarias, geralmente instaladas em casarões antigos reformados, tesouros da Art-Déco, proporcionam uma estadia típica. Após tantas andanças e comilanças, o privilegiado hóspede tem, para seu puro deleite, uma banheira daquelas bem antigas com água fumegante, posta num quarto decorado a lá “E O Vento Levou”, junto a uma elegante cama colonial de madeira maciça e uma lareira com detalhes em mármore italiano. De fato, New Orleans é o lugar certo para o prazer.
Em recente atualização, publicamos esta matéria especial sobre New Orleans. Passados poucos dias, a cidade foi atingida pelo furacão Katrina. Em consideração à população de New Orleans, optamos por não retirar a matéria, para que a cidade possa ser vista e conhecida não pela destruição, mas sim pela beleza e riqueza de sua paisagem, arquitetura, cultura e pelo povo especialíssimo. Gostaríamos de expressar nossa consternação pelo ocorrido e reforçar nossa admiração pela cidade de New Orleans, a qual esperamos que volte a ser, o mais breve possível, alegre e encantadora como sempre foi. Equipe Lugares do Mundo – 29-08-2006.
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LUGARES DO MUNDO New Orleans, o berço do Jazz

Por: Alessandra Barbieri

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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