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DESARRUMANDO
AS MALAS
Por:
Professor Astromar Cleomenes
A
Normandia é um mundo de paz e silêncio, recortado por estradinhas
bucólicas que atravessam pequenas vilas em cuja vizinhança se
misturam fazendas seculares, construídas em pedra, cercadas por muros
baixos, também de pedra, e antigos castelos ducais. Ali se produz,
desde a Idade Média, o “calvado”, um vinho de maçã.
Suas estradinhas normalmente são ladeadas por “bocages”,
emaranhado de espinheiros e de matagal que formam uma barreira natural de
proteção usada como esconderijo para os soldados que por ali
passaram durante milhares de anos.
A
Normandia é uma região litorânea no noroeste da França
onde a paz foi sendo intercalada nas brumas do tempo pela marcha de exércitos.
Legiões romanas, bandos vikings, exércitos normandos, tropas
de Hitler e, por fim, exércitos aliados de libertação
do domínio nazista deixaram pegadas que deram à Normandia uma
história militar.

Fora
da rota do turismo de massa, fica a pergunta: que magia é essa que
leva gente de todo mundo a essa região isolada, com praias frias e
balneários de antigamente? A resposta está em dois eventos,
separados por nove séculos. Um deles, ocorrido em 6 de junho de 1944,
foi o Dia D, o “D-Day”. Na maior operação militar
da História, centenas de milhares de americanos, ingleses, franceses,
canadenses e australianos atravessaram o Canal da Mancha em mais de 8.000
embarcações e aeronaves e chegaram às praias da Normandia
para iniciar a libertação da Europa dominada por Hitler.
E o outro, no ano 1066, aconteceu quando Guilherme, o Conquistador, à
frente do exército normando, atravessou o Canal da Mancha no sentido
inverso, em navios vikings, para vencer os ingleses na Batalha de Hastings
e se tornar o primeiro rei da França e da Inglaterra.

No
caleidoscópio de cidades e vilas da Normandia, destaca-se Bayeux, distante
de Paris 276 km, cerca de 4 horas de automóvel. Só ouvi falar
de Bayeux quando parei em um “office de tourisme” na estrada,
já a meio caminho da Normandia, perdido sem saber onde me hospedar.
Estava indo assistir à celebração dos 50 anos do D-Day.
Ao chegar a Bayeux, entendi o porquê da recomendação do
turismo oficial. Cidade medieval de uns 2.000 habitantes, distante apenas
de 9 a 20km das praias do desembarque aliado. Antigo acampamento viking, virou
cidade ao receber os filhos dos duques da Normandia, que lá iam aprender
com os vikings seu idioma e suas técnicas de navegação.
Um desses visitantes do século XI era um tal de Guilherme.


Bayeux
foi a primeira cidade francesa a ser libertada pelos aliados após o
desembarque. Precedido por um intenso bombardeio e ocupação
por pára-quedistas na noite anterior, a invasão nas praias de
codinome Utah, Omaha, Gold, Juno, e Sword pegou os alemães de surpresa.
Protegidos pela sua “impenetrável” Muralha do Atlântico,
uma formidável fortaleza de milhares de quilômetros de baterias
de grosso calibre, casamatas de concreto armado, metralhadoras, minas, soldados
e todo tipo de armamento e transporte, os alemães esperavam o ataque
aliado em Pas-de-Calais, local mais estreito do Canal da Mancha. Ainda por
cima era lá que Hitler teimava que o ataque iria ocorrer.
Hoje,
cada uma dessas praias tem seu museu próprio, com tudo o que se possa
imaginar de mais autêntico usado na batalha. Armas, uniformes, mapas,
rádios, fotos e cartas pessoais, maquetes, pára-quedas, veículos,
até “bocages”. Percorrendo esses locais, encontramos pequenas
vilas com nomes inocentes como Sainte Mère Église, Sainte Marie
du Mont, Arromanches, Point-du-Hoc. Pois é, inocentes hoje, mas de
inocente não tinham nada no mês de junho de 1944.
Em
Sainte Mère Eglise, por exemplo, desceram centenas de pára-quedistas
americanos na praça central iluminada pelo incêndio em um casarão.
Foram recebidos a tiros pela guarnição alemã ali estacionada.
Um dos americanos caiu na torre da igreja matriz e lá ficou pendurado
em seu pára-quedas. Salvou-se com apenas um tiro no pé. Quem
visita a cidade ainda vê um manequim vestido de soldado pendurado na
torre da igreja. 60 anos depois. O filme “O Mais Longo dos Dias”
revive em detalhes esse episódio.


Já
Sainte Marie du Mont tem sua praça principal e ruelas radiais de acesso
com placas nas paredes, narrando pequenos combates entre soldados alemães
e americanos. Dramas individuais da guerra. Uma delas conta, como em um “western”,
que dois inimigos sacaram suas armas e dispararam simultaneamente. O americano
tombou mortalmente ferido, e o alemão foi socorrido pelo padeiro que
acabara de abrir seu estabelecimento naquela manhã. Um outro episódio,
decisivo na batalha da Normandia e ocorrido em Sainte Marie du Mont, aparece
no filme “Band of Brothers”. A tomada de uma bateria alemã
fortificada por um pelotão americano usando tática inovadora
de assalto. Virou estudo-de-caso em sala de aula na Academia Militar de West
Point.
Pointe du Hoc ainda traz no terreno as marcas e crateras do bombardeio aliado.
E também as casamatas destruídas pelos ingleses e americanos
que tiveram de escalar um penhasco de 35 metros de altura para desalojar os
alemães que dali atiravam nas tropas de desembarque. Esse é
outro episódio mostrado no filme “O Mais Longo dos Dias”.

E
Arromanches voltou a ter sua aparência de balneário do início
do século XX. Mas foi lá que estiveram os imensos portos artificiais
construídos na Inglaterra pelos aliados para o desembarque de milhões
nas semanas seguintes ao Dia D. Partes gigantescas de alguns deles ainda podem
ser vistas lá até os dias de hoje, ou no filme “O Resgate
do Soldado Ryan”.
Mas foi na praia de Omaha que ocorreu o maior número de baixas. A resistência
alemã ali foi mortal e implacável. Por isso, logo acima da praia
existe um imenso cemitério com mais de 10.000 cruzes brancas. O filme
“O Resgate do Soldado Ryan” começa e termina naquele cemitério.
E foi lá que eu tive a oportunidade de cumprimentar e conhecer dois
veteranos do desembarque da Normandia e suas respectivas senhoras. Velhinhos,
de boné e camisa colorida, eles estavam rememorando os eventos em um
mapa colossal que mostra todos os movimentos antes, durante e depois do Dia
D. Segundo o ex-soldado mais velho, ele havia desembarcado mais cedo apenas
para preparar o “breakfast” do mais novo, que acordara tarde.
A
Tapeçaria de Bayeux
Em 2004, muitos veteranos e turistas voltaram ou estiveram na Normandia
para as celebrações do 60º. Aniversário do Dia
D. Como eu, muitos devem ter descoberto o segredo de Bayeux. O mistério
de sua colossal catedral de 1067 é revelado. O que muitos tomam como
artesanato local, tapeçarias, surge como um documento inigualável
da História da Humanidade. A catedral gótica foi construída
pelo Bispo Odo, irmão de Guilherme o Conquistador, para celebrar
sua vitória sobre os ingleses.
Primo de Eduardo, o Confessor, rei da Inglaterra, Guilherme, rei da França
era o herdeiro oficial do trono inglês. Seu primo Harold, sobrinho
do rei inglês, havia jurado sobre as relíquias de santos, que
não iria pleitear o trono da Inglaterra. Entretanto, assim que Eduardo,
o Confessor, misteriosamente morreu, Harold colocou a coroa inglesa em sua
cabeça, assumiu o reinado e transformou-se em tirano. Furioso com
o primo, Guilherme convocou seus exércitos normandos e mandou construir
navios vikings para levar tropas e cavalos através do Canal da Mancha,
da França para a Inglaterra. Os dois exércitos se enfrentaram
na Batalha de Hastings, em 14 de outubro de 1066. A morte de Harold no combate
garantiu a vitória francesa e o trono inglês para Guilherme,
o Conquistador.
Essa história, como se fosse uma história em quadrinhos, está
narrada em uma imensa tapeçaria bordada na época por monges
da Catedral de Bayeux,onde, nos tempos medievais, ela era exibida periodicamente
ao povo, estendida ao redor das colossais colunas do templo cristão.
A tapeçaria tem 60 cm de altura e 70 metros de comprimento. Está
praticamente intacta e aberta à visitação pública
em seu museu exclusivo. Mostra as roupas e os costumes daqueles tempos e
tem seus diálogos em latim. Os menos avisados ficam sabendo que Conan,
o Bárbaro, existiu, e não tinha nada a ver com Arnold Schwarzenegger.


E assim,
na encruzilhada dos séculos, entra para a História o paradoxo
de Bayeux e da Normandia: nunca houve nenhum exército que dali partisse
ou ali chegasse que fosse vitorioso. Nem mesmo Hitler, com sua Luftwaffe,
sua Wermacht, suas bombas voadoras, sua “blitzkrieg”, a reencarnação
do imperador romano Calígula. As únicas vezes em que uma vitória
invasora aconteceu foi quando os invasores estavam lutando pela libertação
de um povo. Na Batalha de Hastings em 1066 e no Dia D, em 1944.
-Informações
adicionais poderão ser encontradas nos sites
http://www.bayeux-tourism.com/eng/index.html
http://hastings1066.com/
http://www.isidore-of-seville.com/d-day/
http://search.eb.com/normandy/
*O
Professor Astromar Cleomenes (pseudônimo) já esteve duas
vezes em Bayeux e na Normandia. Da segunda vez, foi acompanhado de seus
pais, na última viagem que fizeram juntos. Estava atendendo a um
pedido de seu pai, que queria ver, no Vale do Loire, o túmulo dos
reis ingleses da família dos Plantagenets: Henrique II e Ricardo
Coração de Leão. Uma outra história.
Posicione
o cursor sobre as imagens para ler as legendas.
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