Conheça também a Arte Inca, por Danielle Giannini

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DESARRUMANDO AS MALAS
Por: Professor Astromar Cleomenes
Bayeux e Normandia
Embarques e desembarques da História
A Tapeçaria de Bayeux
A Normandia é um mundo de paz e silêncio, recortado por estradinhas bucólicas que atravessam pequenas vilas em cuja vizinhança se misturam fazendas seculares, construídas em pedra, cercadas por muros baixos, também de pedra, e antigos castelos ducais. Ali se produz, desde a Idade Média, o “calvado”, um vinho de maçã. Suas estradinhas normalmente são ladeadas por “bocages”, emaranhado de espinheiros e de matagal que formam uma barreira natural de proteção usada como esconderijo para os soldados que por ali passaram durante milhares de anos.

A Normandia é uma região litorânea no noroeste da França onde a paz foi sendo intercalada nas brumas do tempo pela marcha de exércitos. Legiões romanas, bandos vikings, exércitos normandos, tropas de Hitler e, por fim, exércitos aliados de libertação do domínio nazista deixaram pegadas que deram à Normandia uma história militar.

Point du Hoc - Visão aérea, com destaque para as crateras provocadas pelo bombardeio aliado.
Fora da rota do turismo de massa, fica a pergunta: que magia é essa que leva gente de todo mundo a essa região isolada, com praias frias e balneários de antigamente? A resposta está em dois eventos, separados por nove séculos. Um deles, ocorrido em 6 de junho de 1944, foi o Dia D, o “D-Day”. Na maior operação militar da História, centenas de milhares de americanos, ingleses, franceses, canadenses e australianos atravessaram o Canal da Mancha em mais de 8.000 embarcações e aeronaves e chegaram às praias da Normandia para iniciar a libertação da Europa dominada por Hitler.

E o outro, no ano 1066, aconteceu quando Guilherme, o Conquistador, à frente do exército normando, atravessou o Canal da Mancha no sentido inverso, em navios vikings, para vencer os ingleses na Batalha de Hastings e se tornar o primeiro rei da França e da Inglaterra.
Omaha Beach - Perspectiva em 1944 e perspectiva atual.
No caleidoscópio de cidades e vilas da Normandia, destaca-se Bayeux, distante de Paris 276 km, cerca de 4 horas de automóvel. Só ouvi falar de Bayeux quando parei em um “office de tourisme” na estrada, já a meio caminho da Normandia, perdido sem saber onde me hospedar. Estava indo assistir à celebração dos 50 anos do D-Day. Ao chegar a Bayeux, entendi o porquê da recomendação do turismo oficial. Cidade medieval de uns 2.000 habitantes, distante apenas de 9 a 20km das praias do desembarque aliado. Antigo acampamento viking, virou cidade ao receber os filhos dos duques da Normandia, que lá iam aprender com os vikings seu idioma e suas técnicas de navegação. Um desses visitantes do século XI era um tal de Guilherme.

 

Ruínas da Muralha do Atlântico - Bateria de Longues.
Bayeux - Edificação medieval.
Bayeux foi a primeira cidade francesa a ser libertada pelos aliados após o desembarque. Precedido por um intenso bombardeio e ocupação por pára-quedistas na noite anterior, a invasão nas praias de codinome Utah, Omaha, Gold, Juno, e Sword pegou os alemães de surpresa. Protegidos pela sua “impenetrável” Muralha do Atlântico, uma formidável fortaleza de milhares de quilômetros de baterias de grosso calibre, casamatas de concreto armado, metralhadoras, minas, soldados e todo tipo de armamento e transporte, os alemães esperavam o ataque aliado em Pas-de-Calais, local mais estreito do Canal da Mancha. Ainda por cima era lá que Hitler teimava que o ataque iria ocorrer.
Hoje, cada uma dessas praias tem seu museu próprio, com tudo o que se possa imaginar de mais autêntico usado na batalha. Armas, uniformes, mapas, rádios, fotos e cartas pessoais, maquetes, pára-quedas, veículos, até “bocages”. Percorrendo esses locais, encontramos pequenas vilas com nomes inocentes como Sainte Mère Église, Sainte Marie du Mont, Arromanches, Point-du-Hoc. Pois é, inocentes hoje, mas de inocente não tinham nada no mês de junho de 1944.
Omaha Beach em uma recente manhã de verão.
Em Sainte Mère Eglise, por exemplo, desceram centenas de pára-quedistas americanos na praça central iluminada pelo incêndio em um casarão. Foram recebidos a tiros pela guarnição alemã ali estacionada. Um dos americanos caiu na torre da igreja matriz e lá ficou pendurado em seu pára-quedas. Salvou-se com apenas um tiro no pé. Quem visita a cidade ainda vê um manequim vestido de soldado pendurado na torre da igreja. 60 anos depois. O filme “O Mais Longo dos Dias” revive em detalhes esse episódio.
Sainte Mére Église - Praça central e Igreja Matriz - Professor Astromar e seu maior amigo.
Sainte Mére Église - Detalhe da torre da Igreja Matriz com manequim paraquedista pendurado.
Já Sainte Marie du Mont tem sua praça principal e ruelas radiais de acesso com placas nas paredes, narrando pequenos combates entre soldados alemães e americanos. Dramas individuais da guerra. Uma delas conta, como em um “western”, que dois inimigos sacaram suas armas e dispararam simultaneamente. O americano tombou mortalmente ferido, e o alemão foi socorrido pelo padeiro que acabara de abrir seu estabelecimento naquela manhã. Um outro episódio, decisivo na batalha da Normandia e ocorrido em Sainte Marie du Mont, aparece no filme “Band of Brothers”. A tomada de uma bateria alemã fortificada por um pelotão americano usando tática inovadora de assalto. Virou estudo-de-caso em sala de aula na Academia Militar de West Point.
Pointe du Hoc ainda traz no terreno as marcas e crateras do bombardeio aliado. E também as casamatas destruídas pelos ingleses e americanos que tiveram de escalar um penhasco de 35 metros de altura para desalojar os alemães que dali atiravam nas tropas de desembarque. Esse é outro episódio mostrado no filme “O Mais Longo dos Dias”.
Sainte Marie du Mont - Querido casal de turistas brasileiros observa placa com narrativa de combate entre soldado americano e alemão ocorrido naquele local.
E Arromanches voltou a ter sua aparência de balneário do início do século XX. Mas foi lá que estiveram os imensos portos artificiais construídos na Inglaterra pelos aliados para o desembarque de milhões nas semanas seguintes ao Dia D. Partes gigantescas de alguns deles ainda podem ser vistas lá até os dias de hoje, ou no filme “O Resgate do Soldado Ryan”.
Mas foi na praia de Omaha que ocorreu o maior número de baixas. A resistência alemã ali foi mortal e implacável. Por isso, logo acima da praia existe um imenso cemitério com mais de 10.000 cruzes brancas. O filme “O Resgate do Soldado Ryan” começa e termina naquele cemitério. E foi lá que eu tive a oportunidade de cumprimentar e conhecer dois veteranos do desembarque da Normandia e suas respectivas senhoras. Velhinhos, de boné e camisa colorida, eles estavam rememorando os eventos em um mapa colossal que mostra todos os movimentos antes, durante e depois do Dia D. Segundo o ex-soldado mais velho, ele havia desembarcado mais cedo apenas para preparar o “breakfast” do mais novo, que acordara tarde.

A Tapeçaria de Bayeux

Em 2004, muitos veteranos e turistas voltaram ou estiveram na Normandia para as celebrações do 60º. Aniversário do Dia D. Como eu, muitos devem ter descoberto o segredo de Bayeux. O mistério de sua colossal catedral de 1067 é revelado. O que muitos tomam como artesanato local, tapeçarias, surge como um documento inigualável da História da Humanidade. A catedral gótica foi construída pelo Bispo Odo, irmão de Guilherme o Conquistador, para celebrar sua vitória sobre os ingleses.
Primo de Eduardo, o Confessor, rei da Inglaterra, Guilherme, rei da França era o herdeiro oficial do trono inglês. Seu primo Harold, sobrinho do rei inglês, havia jurado sobre as relíquias de santos, que não iria pleitear o trono da Inglaterra. Entretanto, assim que Eduardo, o Confessor, misteriosamente morreu, Harold colocou a coroa inglesa em sua cabeça, assumiu o reinado e transformou-se em tirano. Furioso com o primo, Guilherme convocou seus exércitos normandos e mandou construir navios vikings para levar tropas e cavalos através do Canal da Mancha, da França para a Inglaterra. Os dois exércitos se enfrentaram na Batalha de Hastings, em 14 de outubro de 1066. A morte de Harold no combate garantiu a vitória francesa e o trono inglês para Guilherme, o Conquistador.

Essa história, como se fosse uma história em quadrinhos, está narrada em uma imensa tapeçaria bordada na época por monges da Catedral de Bayeux,onde, nos tempos medievais, ela era exibida periodicamente ao povo, estendida ao redor das colossais colunas do templo cristão. A tapeçaria tem 60 cm de altura e 70 metros de comprimento. Está praticamente intacta e aberta à visitação pública em seu museu exclusivo. Mostra as roupas e os costumes daqueles tempos e tem seus diálogos em latim. Os menos avisados ficam sabendo que Conan, o Bárbaro, existiu, e não tinha nada a ver com Arnold Schwarzenegger.





E assim, na encruzilhada dos séculos, entra para a História o paradoxo de Bayeux e da Normandia: nunca houve nenhum exército que dali partisse ou ali chegasse que fosse vitorioso. Nem mesmo Hitler, com sua Luftwaffe, sua Wermacht, suas bombas voadoras, sua “blitzkrieg”, a reencarnação do imperador romano Calígula. As únicas vezes em que uma vitória invasora aconteceu foi quando os invasores estavam lutando pela libertação de um povo. Na Batalha de Hastings em 1066 e no Dia D, em 1944.

-Informações adicionais poderão ser encontradas nos sites

http://www.bayeux-tourism.com/eng/index.html

http://hastings1066.com/

http://www.isidore-of-seville.com/d-day/

http://search.eb.com/normandy/

*O Professor Astromar Cleomenes (pseudônimo) já esteve duas vezes em Bayeux e na Normandia. Da segunda vez, foi acompanhado de seus pais, na última viagem que fizeram juntos. Estava atendendo a um pedido de seu pai, que queria ver, no Vale do Loire, o túmulo dos reis ingleses da família dos Plantagenets: Henrique II e Ricardo Coração de Leão. Uma outra história.

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