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DESARRUMANDO
AS MALAS
Por:
Carlos Cortez Minchillo
México
- O turista incompleto
É comum que se tenha alguma dificuldade de se fechar
as malas antes de se pegar o avião de volta. Não necessariamente
por conta das eventuais compras. É que o que tinha sido arrumado com
certo critério e paciência vai se embolando no tira e põe
de roupas, sandálias, creme de barbear. E sempre tem aquela anotação
de endereço que a gente não acha quando precisa e daí
só revirando tudo, às pressas. Pelo menos comigo é assim.
Daí a sensação que as viagens nunca caibam na bagagem.
E não cabem também dentro da gente, porque as cenas memoráveis
são muitas e os sons, cheiros, encontros, conversas parecem sempre
extravasar os quatro cantos das fotos. Daí, só quem foi, viveu
e tem boa memória pode mesmo saber o sabor que tem essas andanças
que a gente faz por toda parte.
Mas
acho que na enxurrada de impressões que marcam qualquer turista minimamente
atento e sensível, há sempre umas duas ou três que são
a melhor tradução de tudo o que se viu.
Na viagem que
fiz ao México em fevereiro não foi diferente. Eu posso repetir,
como muitos outros viajantes, que o país é incrivelmente belo
e pujante, que a gente se sente meio em casa porque reconhece uma latinidade
que está nas placas das estradas, no variado artesanato, nos ambulantes
e seus pregões, nas barracas de frutas, no restaurante meio chumbrega
que serve comida para lá de apetitosa. Posso também falar das
impressionantes construções dos povos pré-colombianos
e das marcas de um projeto colonial que construiu bem mais que casinhas de
barro em povoados de pitoresca natureza.


O México
vale qualquer esforço e eu digo isso conhecendo apenas o que se chama
de "arredores" da Cidade do México, um percurso de não
mais de 1000 Km por estradas que ligam Guadalajara, Guanajuato, San Miguel
Allende, Querétaro, Puebla e o Distrito Federal. Posso imaginar o
que se esconde no norte desértico, naquela estreita faixa peninsular
da Baixa Califórnia, na península de Yucatán, no litoral
do Golfo e do Pacífico. O México é daqueles países
que a gente deixa já pensando em voltar.
Mas resumo aqui uma cena que, é verdade, poderia ter acontecido em
outras partes, até mesmo onde eu moro. Mas para mim assumiu um poder
meio encantatório e se tornou um desses centros de gravidade em que
as lembranças de viagem se apóiam.
Em Puebla, na
última manhã que passaria na cidade, fui atrás de umas
peças de cerâmica Talavera, típica da região. As
ruas ainda estavam vazias e eu olhava as fachadas das casas já meio
que antecipando a despedida. Perto de uma das igrejas que pontuam a cidade,
uma índia jovem e uma criança de uns dois anos ao lado de um
pedaço de tecido estendido na calçada. A moça vendia
uns cavalinhos de pano e a criança andava em volta da mãe, em
absoluto silêncio. A cena não era triste, não pareciam
miseráveis, o xale vigorosamente colorido da índia e os encantadores
cavalinhos cuidadosamente dispostos em fila na calçada não faziam
supor nem fome, nem intensa precariedade. Não imploraram que eu comprasse,
na verdade o que mais me impressionou foi a tranqüilidade com que lá
estavam e lá se deixavam ficar. Tudo muito diferente do incômodo
que senti com os vendedores que percorrem os trens do metrô da capital,
anunciando cópias (evidentemente piratas) de CDs e DVDs.

No caso da índia,
o mais provável é que fosse pobre, talvez não morasse
lá muito bem, mas mantinha a dignidade silenciosa de quem tem algo
de bonito a oferecer. Não tenho certeza se ela mesma fabricava os objetos
que vendia, mas alguém fez mais que apertar uns botões para
criar aqueles cavalinhos. Isso já dava outra alma ao negócio
todo.



O
fato é que tenho uma amiga que coleciona cavalinhos e imediatamente
lembrei que um daqueles seria novidade na sua coleção. E verdade
também que me deu um prazer impulsivo a idéia – ingênua,
evidentemente - de que um cavalinho vendido poderia ajudar na comida do dia
ou na fabricação de outros. Custavam 5 pesos, o que equivale
mais ou menos a R$ 1,30. Mas foi aos poucos que a coisa se transformou mesmo
numa cena memorável. Escolhi entre as pequenas estátuas de pano
o animal mais simpático, dei a moeda à jovem e nessa altura
a criança não tirava os olhos de mim e de Francisco, meu companheiro
de viagem. Se aproximou, deve ter ouvido uma língua estranha, a mãe
recebeu a moeda. Também ela parecia curiosa com aqueles dois turistas
de bermudas. Aí começou uma sessão de acenos entre nós
e a criança, que, com uma mãozinha que abria e fechava,



respondia
os tchaus que íamos mandando com verdadeira satisfação,
a mesma satisfação que qualquer criança de dois anos é
capaz de provocar em seus movimentos meios descoordenados. No fundo, a comemorada
despedida redimia a transação comercial e nos poucos minutos que
durou pôs em contato seres que vinham de planetas diferentes. E que não
vão mais se encontrar.

Esse
contato não mudou na prática a vida de ninguém, eu estou
de volta a São Paulo, a índia deve estar lá ao lado do
pano estendido na calçada, com sua filhinha. Mas me bateu como um emblema
das viagens, por várias razões. Primeiro porque uma das delícias
das viagens é que a gente pode suspender um pouco a pressa e permitir
que alguma comunicação se dê, mesmo nos mais fortuitos
encontros, nas mais improváveis situações. As coisas
podem superar o "dá cá, toma lá" que resume
um pouco o dia a dia, ao menos numa cidade como São Paulo. Segundo,
porque as viagens me ensinaram que a vida é um pouco uma despedida
constante e que não há necessariamente desprazer nisso. Por
fim, que por mais que se encham as malas de cavalinhos de pano e pecinhas
de cerâmica, por mais fotos que se tirem, os lugares e pessoas não
cabem na bagagem e o turista é, por definição, um cara
que aprende que está sempre - e cada vez mais – incompleto.
Carlos
Cortez Minchillo é professor de Literatura e atualmente desenvolve pesquisa
sobre relatos de viagens de escritores brasileiros e estrangeiros.
Ao lado, Francisco Martins Moysés, companheiro de viagem de Carlo Minchillo.
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